Perigos da exposição dos filhos no Facebook: a história de um sequestro facilitado

Não é de hoje que venho chamando a atenção para o uso de redes sociais envolvendo crianças e adolescentes, com mais ênfase naqueles.

Já tive a oportunidade de fazer um alerta aqui no Blog sobre a perigosa relação do Instagram com pedófilos e com pornografia em geral. Fico absolutamente espantado com a quantidade de menores de idade que acessam a rede social, aparentemente com pouca ou nenhuma supervisão de adultos, inclusive expondo número de celular e email.

Também não são poucas as reportagens, os artigos e os estudos sobre essa polêmica relação. Adultos acessam redes sociais intensamente, mas será que fazem a devida reflexão sobre o que e como o estão fazendo? Ou, ainda, como seus filhos também a estão utilizando?

Fosse aqui uma aposta, minhas fichas estariam no lado do NÃO.

A questão é que não se trata apenas de uma ponderação sobre o uso de redes sociais por filhos e dependentes… existe um outro lado também muito perigoso dessa moeda: a superexposição da vida privada de toda a família, especialmente de crianças.

O assunto já ganhou espaço até mesmo na TV. O Domingo Espetacular, recentemente, produziu uma reportagem especial para o Dia das Mães sobre os riscos de se exporem filhos menores nas redes sociais:

Redes sociais oferecem riscos: publicar fotos dos filhos pequenos pode ser perigoso

Outro conteúdo muito interessante sobre o assunto foi produzido pela equipe do site Delas, do Portal iG:

10 fotos que os pais não devem compartilhar nas redes sociais

Aproveitem e leiam mais este artigo aqui, também do pessoal do iG:

Como compartilhar fotos dos seus filhos com segurança

Mas… como nem todos têm tempo ou acesso a esse tipo de conteúdo, pelas mais variadas razões, volta e meia temos conhecimento de notícias ruins envolvendo crianças e internet.

Eis que, ontem, acessando minha timeline do Facebook, uma amiga compartilhou a notícia de um sequestro do filho de um empresário ocorrido em Ilhota, Santa Catarina.

O crime e o sofrimento da família foram acompanhados de perto pela equipe de jornalismo do Diário Catarinense, do Grupo RBS.

O que me despertou a atenção para o caso foi a revelação à imprensa, por um dos criminosos envolvidos, de que o menino foi monitorado principalmente pelo Facebook.

Vejam a sequência de notícias sobre o caso; em seguida, a entrevista alarmante do criminoso:

manchete-DC

Destaque para a última manchete:

“Planejei tudo acompanhando o garoto pelo Facebook”, afirma suspeito de ser o mentor do sequestro em Ilhota

Nessa matéria, a reportagem apresenta um vídeo que retrata uma espécie de “coletiva” de jornalistas com o criminoso, que admite calmamente como monitorou o garoto, planejou e executou o crime.

Em determinado momento, o criminoso admitiu que aquela foi a primeira vez em que sequestrava alguém:

Repórter (2m53s): E quando vocês viram que não ia dar mais certo?

Sequestrador (2m56s): Na minha ideia era tudo muito simples, que é a primeira vez que faço isso. Eu só achei que eu ia simplesmente pegar a criança e depois ligar e com 2, 3 dias, de repente, o dinheiro já taria lá.

Outro trecho estarrecedor foi este, logo no início do vídeo, em que o sequestrador revela que foi no Facebook que obteve todas as informações de que precisava sobre a vítima e sua família:

Sequestrador (0m28s): Facebook fala tudo, né? Foi ali que eu achei tudo.

Reporter (0m39s): E como tu sabia que ele (o garoto) ia tá lá (no colégio)?

Sequestrador (0m41s):  Como eu sabia? Porque eu fui até o colégio dele. Eu investiguei. E ali (no Facebook) mostra tudo, né? É como eu tô falando pra vocês. Se vocês puxarem lá, vocês vão ver que ali mostra tudo da vida deles. Tem até foto da casa deles.

Reporter (1m40s): O Facebook foi fundamental então para esse sequestro?

Sequestrador (1m42s): Sim. Se vocês puxá lá vão ver como mostra tudo da vida pessoal. Mostra até dentro da casa deles!

Não é a primeira vez em que redes sociais são instrumentos para planejamento e execução de crimes dessa natureza, mas, nesse caso, chama a atenção o fato de o próprio criminoso admitir publicamente como foi fácil investigar a vida pessoal da vítima.

Tenho plena convicção de que três circunstâncias foram fundamentais para esse episódio:

  1. A ingenuidade com que as pessoas acessam a internet e as redes sociais; e
  2. O desconhecimento sobre os mecanismos de privacidade de conteúdo que as redes disponibilizam para uma interação segura na internet;
  3. A ausência de  uma reflexão crítica sobre o que se pretende compartilhar e com quem.

Cada vez mais, quando acesso publicações de amigos e de desconhecidos no Facebook, tenho por hábito observar a privacidade escolhida (ou não) daquele conteúdo, especialmente fotos e checkins.

Comecei a descobrir pelo Facebook onde o filho estudava e o que o pai dele fazia e então decidi sequestrar o garoto. Planejei tudo acompanhado ele pelo Facebook. Lá tem tudo da vida deles, tem até foto de dentro da casa família.

Fico verdadeiramente surpreso como as pessoas deixam esse conteúdo tão sensível no modo “público”.

De tempos em tempos, costumo rever minhas configurações de privacidade (não somente do conteúdo diretamente gerado por mim, mas, também, compartilhado de maneira automática por aplicativos integrados ao Facebook, como o Instagram e o Foursquare). Faço a mesma análise para minha família, nos respectivos perfis, lado a lado com os próprios interessados.

Claro que isso, por mais cuidados que tenhamos, pode não ser suficiente. É preciso filtrar o conteúdo que se deseja compartilhar. Estabelecer limites para si mesmo e para o restante de nossas famílias. Porque, afinal, de nada adianta eu ter pleno controle sobre meu perfil e minha esposa, por exemplo, não ter controle nenhum. Aí, basta uma marcação em foto ou um checkin compartilhado para jogar por terra todo o nosso zelo.

O mais importante é, de fato, que as pessoas, ao menos, entendam o que são e para que servem as redes sociais.

Elas são um instrumento como qualquer outro, uma ferramenta para se atingir um resultado: conectar-se.

É preciso saber usá-las.

A cada dia que passa, as redes sociais ficam mais poderosas e cada vez mais presentes no nosso cotidiano. Em muitos casos, já são parte fundamental de nossas vidas.

Vale a pena até mesmo fazer um exercício de realidade alternativa: se você fosse tirar algumas fotos de uma viagem pessoal com sua família e as mandasse revelar, teria coragem de afixá-las no muro do lado de fora de sua casa, onde tanto você, seu cônjuge, seus filhos, seus vizinhos como qualquer outra pessoa (mesmo que esteja apenas de passagem) poderia vê-las?

Pense nisso.

O melhor que temos a fazer, como pais e mães, é conhecer bem as redes sociais e estudar todo o seu alcance, como instrumento que são. Este é uma obrigação que pais e responsáveis devemos ter para com seus filhos e dependentes. Em última análise, é nossa a responsabilidade por qualquer coisa que venha a acontecer a nossos filhos pela falta ou negligência de supervisão sobre o uso da internet.

Porque, afinal de contas, se assim não fizermos, estaremos colocando não somente nossas vidas em risco, mas, também, e sobretudo, a vida daquelas joias mais preciosas que temos.

#ficaadica

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